terça-feira, 16 de setembro de 2014

Arte & Cultura: Impressão: nascer do sol




Esse quadro de 1872, medindo 48 cm x 63 cm, intitulado
Impression, soleil levant 
é um óleo sobre tela do pintor francês Claude Monet (1840 - 1926).
Encontra-se atualmente no Musée Marmottan Monet, arredores de Paris.

Do seu nome, deriva o movimento artístico (artes plásticas e música) denominado Impressionismo o qual, na pintura, foi liderado por um outro pintor, também francês, quase xará, chamado [Édouard] Manet...

Principais características
  • Paisagens
  • Valorização da luz natural e da decomposição das cores
  • Pinceladas soltas (sensação de movimentos)
  • Sombras coloridas e luminosas.


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Fontes:
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Claude_Monet,_Impression,_soleil_levant,_1872.jpg
http://www.suapesquisa.com/artesliteratura/impressionismo.htm




sábado, 23 de agosto de 2014

Literatura: Amizades em tempo de internet

(Homenagem aos amigos inesquecíveis)
 
 
Há os que nos encantam e nos enchem o saco,
com quem a gente discute, deixa furos, fala palavrão,
vai a festas, missas, centros espíritas, churrascos, chopes, bate-papos.
Faz vaquinha e divide sonhos.
Aporrinhados, mandamo-nos pruns lugares feios
- pra onde não vamos, ficando por perto mesmo para
cutucar, curtir e comentar nossos posts sem graça
e esperar o próximo encontro...

Há os que não: são sempre sóbrios, educados, simpáticos,
sabichões, bem-sucedidos: nada errado, apenas formais.
Há promessas de reencontros,
de churrrasquinhos, cineminha, chopinhos e o escambau,
e mensagens nas datas especiais.
Estes são lembrados pelo sistema;
aqueles, nem isso ajuda...

Os primeiros, enxeridos, falam mal das nossas roupas,
contam piadas sem graça, reclamam da cerveja quente
e da marca dos sucos naturais e dos guaranás;
sem cerimônia, dizem que estamos fora de forma,
que precisamos caminhar, que o nosso time é uma porcaria.
Não curtem os nossos livros e discos,
não sabem dos nossos gostos, mas conhecem os desgostos
e não têm vergonha de dizer na bucha,
com a cara mais lavada do mundo, que
não têm a mínima ideia
de quem ganhou o Nobel de Literatura.
"- Nobel? Quê isso?”
Escrevem vc, kd, naum...
 
Os outros, não: elogiam-nos a silhueta amorfa,
sugerem-nos vinhos das melhores cepas e safras,
perguntam-nos como vai a vida, o que temos feito dela,
que fim levou fulano e beltrano... E a saúde, como vai?
Falam de Drummond, Nietzsche, Virginia Woolf, Fernando Pessoa:
são capazes de citar poemas inéditos.
Não gostam de Bergman – sua obra é densa e hermética –
e se lembram de coisas
de que já me havia esquecido.

Os abraços de uns quase nos sufocam,
os apertos de mão quase nos invalidam,
e a presença não deixa espaços vazios.
Não há sorrisos, mas gargalhadas.
Os dos outros, são leves, limpos, cheirosos.
Os apertos de mãos são clássicos, impecáveis,
e a presença, raramente casual, são agendadas com rigor,
com ares de corte.
Tudo é mais comedido...
 
 Uns preenchem os vazios da vida,
os outros fazem-nos falta e,
nas respectivas singularidades,
são-nos plurais e únicos...
– Prazer conhecê-los.
 
______________________
 
Crédito das imagens
 
 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Literatura: Álbum de família

Imagem e texto (Análise de imagem) postados no Facebook por Lívia Rezende, minha filha predileta, na madrugada do dia 13/8/2012 (segunda-feira) em homenagem ao Dia dos Pais. Na época, ambos éramos bem mais jovens! Na foto, tirada pela mãe na Quinta da Boa Vista (RJ), ela estava com 8 aninhos...
Não tem preço.
 
Lívia e Paulo Rezende

Nós dois.
Caminhando, paralelamente, pelo mesmo caminho.
Tratamos o trajeto com cortesia; as mãos entrelaçadas são sinal de tranquilidade.
Para trás, nos voltamos com um sorriso. Gentis com o passado, como deve ser quem tem a consciência tranquila. 
Os pés mantém a caminhada.
O lado para o qual nos viramos é o mesmo; o ângulo do que vemos é parecido – apesar de, claro, minha visão de mundo estar muito abaixo do seu horizonte
(até hoje e pra sempre, por sinal!).
A seguir, uma bifurcação e duas certezas: um caminho será escolhido e eu permanecerei ao seu lado, porque a nossa vida é isso.
____________________

Te amo tanto, pai, tanto, que estou até agora tentando me importar por não ter te dado um presente ontem (é, já passou da meia noite). Ele vai chegar, ainda que não nos preocupemos.
O que eu tenho de real pra te dar, todos os dias, é isto: o meu sentimento registrado e a constante agonia por não existir loja no mundo que venda o que sei você precisa.
Te amo MUITO!"

 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Análise Literária - O eu poético

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Autopsicografia
(fragmento de texto, de Fernando Pessoa)


A literatura é uma obra aberta, não estando, portanto, sujeita aos limites denotativos impostos por um texto não literário. As palavras e expressões assumem sentidos diferentes dos contidos nos dicionários, a ausência de pontuação – impropriedade do ponto de vista gramatical! –, nela constitui licença poética, estabelecendo um estilo próprio dos poetas.

Enquanto num texto técnico, por exemplo, a repetição de palavras pode, em princípio, constituir impropriedade que deve ser evitada, na arte, configura-se qualidade pelo que de expressivo contém em si.

O eu poético

O texto a seguir, de autoria do amigo Rafael Massoto, é um exemplo interessante da arte de poetar. Observe que, através de algumas deixas, somos capazes de re/conhecer o perfil do “eu poético” (ou eu lírico): a faixa etária, os gostos, o ambiente e a época em que vive, se está alegre ou triste – o que, afinal, pretende dizer e como o faz. De forma alguma esse retrato deve ser confundido com o autor: enquanto este é de carne e osso, aquele não passa de um personagem de ficção cujo papel é contar uma história, recitar um poema. Não existe, portanto, no mundo real.

[Sem título]

Quando eu falar dela
sei que vão dizer não extrapole
Eu direi sei que segurar o recalque não é mole
Ela é o drible do Garrincha
ela entorta a sua vista
Se você se acha o
skate

ela é o skate e a pista
Se você se acha a lata
ela é a lata e o
graffiti


Mulher igual não existe
nem um anjo resiste
Mesmo que ninguém em mim acredite
Não terei medo de relatar o que ela é
Ela é aquela que na praia cala as ondas
É a música inédita que você mal ouve se apaixona
É aquele pensamento bom que vem antes do sono
É a tal liberdade de que todo mundo que ser dono
Ela é o beijo que a minha boca mais deseja
E você a vê
mesmo que a distância impeça que a veja
Por fim só ela existir
ela acaba com todo meu abandono.


Análise Literária*
Exercício

Logo de cara, podemos depreender que o “eu poético” é um jovem apaixonado – ou uma apaixonada!, quem sabe – do tipo exagerado, cego de amor. Mais tarde, descobriremos que, no fundo, é um solitário.

As pessoas com as quais enaltece com bastante veemência as qualidades da amada parecem não mais acreditar nos elogios que faz: são repetitivos e exagerados, mas isso não o preocupa nem o esmorece. Atribui a rejeição à inveja incontrolável dos amigos.

“Quando eu falar dela
sei que vão dizer não extrapole
Eu direi sei que segurar o recalque não é mole”


É interessante notar que o eu lírico, ao não dispor de palavras adequadas para expressar os sentimentos ou por preferir ilustrar a sua admiração de tal forma que não haja dúvidas quanto à beleza decantada, recorre estrategicamente à metonímia - figura de linguagem que consiste no emprego de um termo no lugar do outro pela afinidade ou semelhança de sentido. Constrói imagens possivelmente familiares às pessoas que integram o grupo do qual faz parte – apaixonados por futebol e por skatistas, grafiteiros e outros jovens artistas. No íntimo, deve pensar que "somente assim poderão me entender...”.

“Ela é o drible do Garrincha
ela entorta a sua vista
Se você se acha o
skate

ela é o skate e a pista
Se você se acha a lata
ela é a lata e o
graffiti
 
 
 
A amada é imprevisível ("drible que entorta"), mas o completa ("skate e pista") por ser completa em si mesma ("lata e graffiti"). Na sensualidade, não é humana: é divina, sagrada e única, capaz de fazer perder a cabeça até os mais puros dos seres imortais.

“Mulher igual não existe
nem um anjo resiste”


Os amigos são-lhe importantes e não deseja perdê-los. Entretanto, está decidido: se tiver que correr riscos para não se afastar da musa que o inspira e dá sentido à vida, não terá dúvidas sobre o que fazer. Observe que "ela" é mais do que qualquer representação: "ela" é, no sentido de ser integral.

“Mesmo que ninguém em mim acredite
Não terei medo de relatar o que ela é”


Primeiro, reverencia a forte presença da mulher que, de tão impetuosa, chama para si toda a atenção e pode facilmente ser identificada e reconhecida entre mil... "Ela é aquela..."!

“Ela é aquela que na praia cala as ondas”
 
 
 
Depois, ressalta a beleza, a harmonia, a tonalidade, a sonoridade, os passos e os compassos marcantes que envolvem quem a observa desde a primeira impressão...

“É a música inédita que você mal ouve e se apaixona”

É o ser angelical, mais do que a mulher, que o acalma e o relaxa, preparando-o para o sonho e o despertar de um novo dia:

“É aquele pensamento bom que vem antes do sono”

Deslumbrado ante à beleza da amada, descobre-se no paradoxo de desejar possuí-la para não correr o risco de perdê-la - ao tempo em que sabe ser essencial deixá-la se sentir livre - não ser!, desta vez - para continuar desejada:

“É a tal liberdade que todo mundo que ser dono” 


 
 
 
E, então, advém o desejo de tocar e de ser tocado; não sabe o que pensar – não quer pensar, e não pensa! Dissimula a sua intenção: não é a sua alma que deseja a mulher, mas a sua boca, a parte sensual que completa e efervesce as carícias. E em sendo ela o próprio beijo, serão um só, indissolúveis...

“Ela é o beijo que a minha boca mais deseja”

Se não bastasse a estonteante presença, sabe que vive com a mesma intensidade e força na lembrança, tornando-se inesquecível e eterna.

“E você a vê
mesmo que a distância impeça que a veja”


Finalmente, absorto, exausto ("por fim"), fazendo uso de uma linguagem tímida, emocionada, entrecortada e quase infantil (repetição do pronome "ela"), confessa a razão de tanto amor e adoração. É o único trecho em que há sinal de pontuação - no caso, um ponto final, como se não precisasse dizer mais nada.

“Por fim só ela existir
ela acaba com todo meu abandono."


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(*) Esclarecimento importante: os comentários acima não constituem, em nenhuma hipótese, a única possibilidade de se tentar analisar literariamente um texto poético; antes, são pontos de vista, resultados da minha visão de mundo, do momento em que os escrevi, dos sentidos e sentimentos que pude perceber. É possível enxergar outros aspectos e, claro, pintar com outras cores e nuanças a mensagem contida no texto. Se o autor vai concordar, aí é outra história!
Assim é a arte! – e é bom que assim seja...

 

sábado, 17 de maio de 2014

Artigo: De Deus!

Texto em homenagem a
Matheus de Jesus Oliveira
filho de Mariana (Mary Jesus) e Raphael (Raphael Oliveira),
sobrinhos e afilhado (o pai), nascido hoje, 17/5/2014, sábado, às 7h53, no
Hospital de Clínicas de Niterói.
 
O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.
(O Pequeno Príncipe) 

Dom, presente, dádiva de Deus! Esses são os significados do nome Matheus, variante do hebraico Mateus.

Ainda não vi o rostinho dele – não sei se parece com a mãe, espero que não, com o pai, também não, com os avós, Deus o livre! Gostaria que se parecesse com este tio-bisavô (quem diria, hein?!): bonito, simpático, inteligente, bem humorado, glamouroso, flamenguista! Para quê mais, não é mesmo? Sei que as chances são pequenas – tem tantos genes e cromossomos juntos e misturados entre nós! – mas, não importa, será dessa maneira que o verei quando der o primeiro, o segundo, o milésimo, septuagésimo – ufa! já perdi as contas! – sorriso pr’esse cara aqui, ó!

Não sei quem serão os seus heróis, sequer se na sua juventude – daqui a uns quinze, vinte anos – as pessoas ainda estarão preocupadas com isso. Não sei se dará bola pro Papai Noel, se brincará de carrinho, se gostará de futebol, voleibol ou tênis, se vai gostar de ler, que faculdade vai cursar – se é que precisará cursar alguma. Não sei qual será a cor preferida, o time campeão do mundo pelo qual torcerá, o tom de voz, o perfume predileto, o formato do rosto, do nariz – espero que não se assemelhe ao das avós! – nem a cor da pele – se puxar a da mãe coruja, tudo bem...

 
Olha para dentro de ti mesmo.
És mais do que aquilo em que te tornaste.
(Rei Leão)
Ainda não sei nada sobre Matheus, sacanagem, não é mesmo?, um universo a ser descoberto, um mundo a ser construído... Mas ficarei atento e aos poucos desvelarei os segredos desse malandrinho: se sente cócegas, se chora à toa, se é pirracento, se vai ser brigão ou será da turma do deixa disso como Raphael, o papai babão! Ou se vai adorar uma caminha quente, como o vô Joel! O tempo vai mostrar os traços em comum com o vovô materno... Se vai gostar de pagode ou funk? Não, quero dizer, não sei! Se tiver chance, tem umas sertanejas que pretendo lhe mostrar...

Seja bem-vindo, menino, e que Deus o abençoe! Por muitos motivos que o tempo vai se encarregar de lhe mostrar, você é muito especial... E disso, todos temos certeza!


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Nota: fui o primeiro a escrever o nome dele completo: Matheus de Jesus Oliveira, informado por telefone pela (enrolada rs) avó paterna, Diana Rezende. Não sei exatamente o que isso significa, mas me senti honrado.


Foto inserida às 17h35, "roubada" do álbum da vovó paterna.
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Olhares - A menina dos pés descalços


https://fbcdn-sphotos-c-a.akamaihd.net/hphotos-ak-ash3/1533738_622265247820529_321010636_n.jpg
Imagem compartilhada do amigo Marco Neggerini.
Autor desconhecido.

Indiferente, a luz do sol não produz sombras sobre o chão ressequido; apesar de impróprio para o descanso e plantio, cria raízes.
Elas seguem em frente na direção do frescor e da vida, embora voltar fosse outra possibilidade. Carregam lado a lado, sobre as cabeças em disfunção, numa coreografia ensaiada e recorrente, fardos proporcionais.
Decerto, esperam-nas alhures.

Vestidas, livram-se do frio e dos ferrões; os cortes disfarçam-lhes as curvas, atenuando as maledicências e os olhares cobiçosos – como se essas coisas lhes pudessem aviltar ainda mais.

Uma protege os pés; a outra parece não se importar.

Exemplo e aprendizagem.
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sábado, 4 de janeiro de 2014

Reflexão: Buscas



Se buscas o reencontro e paras e esperas e vês ser em vão;
se buscas no limiar desses tempos, sem ânimo,
o encontro do que ficou para trás:
- Revolve o passado, remove as lembranças que o tempo imprimiu...

Se buscas palavras amigas guardadas na ânsia do deixar pra depois,
se buscas tesouros perdidos e, dentre as joias achadas,
somente incertezas:
- Revolve o passado, devolve essas mágoas que o tempo marcou...

Se buscas carícias e as percebe caídas sobre teus desencantos,
se buscas dias raiados e revês, espalhados,
os teus sonhos partidos:
- Revolve o passado, revisita apressado os teus amanhãs...

Se pungente reclamas as chances deixadas nos caminhos trilhados,
se do aceno fugaz recordas, tristonho,
despedidas eternas:
- Revolve o passado, resiste à vontade de não-ser outra vez!

A realidade fugidia atrela-se à porta e cobra-te os sonhos
e clama sentida o sentido da vida que se faz sem vencer.
Abre os braços, abraça o horizonte, escuta o pulsar das emoções inocentes
e percebe, escondidas, as suas razões.
Contempla, depois, o nascer da alegria que na fantasia reluz e renasce.
Reouve, indolente, o raiar dos teus dias e descubra com fé o sentido da dor.

Se buscas na vida a sua magia
e na essência do amor o teu despertar,
hás de encontrar em ti...

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Reflexão: Silêncio e ação


 
 
O Deus no qual acredito não carece de oratória, mas de ações, exemplos e de testemunhos pessoais. Citar salmos, capítulos e versículos, elaborar orações bonitas, impressionar os incautos ao declamá-los de cor, tudo isso é fácil: certamente, os fariseus foram mestres, como o são políticos, professores, religiosos, filósofos e tantos outros, de todas as cepas e épocas, que se utilizaram do verbo perfeita e inescrupulosamente.

Devemos ser capazes de doar, de dar as mãos, de proferir palavras que fluam de nossa alma com sincera afeição. Se o fizermos extemporaneamente, soarão falsas; se fora dos contextos, serão obscuras, incompreensíveis e induzirão a erros e mal-entendidos. É a sabedoria que edifica.

O Deus no qual acredito inspira-me à prática do amor, da caridade, da benevolência; inspira-me à paciência, à resignação racional, à perseverança; inspira-me à fé inteligente, à lealdade e à afeição; inspira-me o respeito à vida, à natureza e ao outro... Inspira-me à desconstrução das armadilhas verbais e à coragem de não aceitar belos discursos quando, subjacentes às palavras, afloram interesses escusos escondidos sob máscaras angelicais.

Devemos ser capazes de realizar, de soltar as mãos e caminhar livres, juntos, de ouvir e compreender o que envolve nossa alma com sincera afeição. Se em certas circunstâncias isso não nos parecer fácil, que possamos cerrar os olhos e, na quietude, ir além das aparências e perscrutar os sentimentos mais íntimos. É o esforço que constrói.

O Deus no qual acredito não tem aparência, aroma, cor, textura, gosto, peso, sexo!, mas possui em Si todas as formas... É silencioso, sem o ser. Não fala, inspira – o modo pleno e inequívoco de comunicação. Não carece de oratória, mas de exemplos vividos – única forma de enaltecê-Lo, honrá-Lo e dignificá-Lo...
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domingo, 29 de dezembro de 2013

Reflexão: Tombos e recomeços


http://pt.gdefon.com/download/planeta_menina_abismo/375304/1920x1200
Segue em frente. Não deixes de dar o próximo passo, nem relutes: alcançarás o objetivo, se o houveres estabelecido. O amanhecer desperta-nos para a vida lúcida; o anoitecer acalanta e tu descansas para continuar.
Espera o amanhã sempre amigo e sorri, porque sempre haverá um despertar.
 
Segue em frente, sempre, não recues nem olhes para trás - ainda que devas contornar e recontornar abismos, subir escarpas, descer penhascos uma, duas, cem vezes: assim fazem os vencedores.
 
Não deixes de caminhar porque te sentes cansado; anima-te, vamos!; daqui a pouco terás cumprido mais uma etapa que te conduzirá à porta dos sonhos.
Lembra-te, o tempo não recua e não dá uma segunda chance. Abra-a sem medo.
O amanhecer iluminado desperta; o anoitecer, que nos envolve na penumbra, acalma. Sê a vida num e noutro momento: serás a chama companheira que clareia o depois!
 
Segue em frente, sempre. Acolhe os espinhos, afague os momentos de esperança: o primeiro pode ferir, o outro estanca e alivia a dor.
O amanhã será o teu tesouro. E esperá-lo é viver com intensidade a noite que extasia e fortalece. Sê o amigo! E se o porvir demorar, delicia-te com o descanso.
 
http://www.becodospoetas.com.br/profile/VeraHelena
 
Segue confiante. Não deixes de dar o próximo passo.
Sê forte, porque as vicissitudes, razões das lutas, são o tempo necessário à reflexão - e não há reação na paz...
 
Busca a felicidade sempre e não dê tempo ao rancor de se instalar e de inebriar-te com prazeres efêmeros e fantasias que podem esvaecê-la... Serás feliz.
Não com os desencantos ou com o vangloriar das lutas em si - às vezes parecem não fazer sentido e não nos levar a lugar algum - mas pelo que terás aprendido ao cavalgar com desenvoltura no silêncio das noites quando, adormecido, descansavas  dos tombos e recomeços...

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Literatura: Segredo das nossas Histórias



Nota Preliminar
Trecho do livro Relembranças (título provisório) a ser publicado.



Segredos no fundo do mar
 



A luz do lampião divisava foscamente o rosto do meu pai...

" - Essa noite sagrada que lembra o “nascimento-de-Nosso-Senhor-Jesus-Cristo”, como ele dizia num só fôlego.
 
Treze anos!
Havia voltado mais cedo da roça. Tomara rapidamente um banho, comera alguma coisa e, calado como entrara, fui me deitar. Ainda não eram nove da noite. A casa em silêncio. Não conseguia dormir.
A luz do lampião divisava foscamente o rosto semicoberto do meu pai – um hábito antigo. Sua respiração compassada, o calor abrasador e os pensamentos confusos e rebeldes: sentia saudades da minha mãe, lembrava-me de Zezinho , de Anita.
O sino da igreja ao longe batera doze badaladas. Meus olhos se umedeceram ante o convite insistente... - “Vem, vem, vem...”
Levantei-me devagar, abri a porta da sala e saí. Ainda ouvi papai falar alguma coisa; ignorei-os e corri. Corri.







... o céu cintilante e a estrada deserta e escura...

A missa já havia sido celebrada. Entrei na igreja e sentei-me num dos bancos compridos. Ajoelhei-me e tentei lembrar da oração que me fora ensinada; tenso, só conseguia relembrar o sentido e as palavras iniciais. Esforcei-me, soletrando todo o abecedário. Desisti.
- Merda...
Permaneci por alguns instantes assim, com as mãos cobrindo o rosto. Suava. Ergui os olhos e procurei fixar as imagens que se escondiam na penumbra. Sorri sem o entender o porquê e saí va-ga-ro-sa-men-te. Do lado de fora, o céu cintilava e a estrada deserta e escura iluminada pelo reflexo do sol do outro lado do mundo.
- “Do outro lado do mundo fica o Japão...”, orgulhava-se de poder me revelar esses segredos guardados.
Algumas pessoas conversavam na praça. Acenaram-me. Retribui-lhes. Voltei à casa correndo e entrei enfurecido com o nada.
- “Já chegou?”
Continuei em silêncio.
- “Tem uma lembrança pra você...”
Mordi os lábios e comecei a chorar baixinho, pressionando o rosto contra o travesseiro para que papai não nos percebesse. Silêncio.
Ouvia o barulho do riacho que seguia indiferente em direção ao mar - outro segredo que me revelara certa vez: o destino dos riachos. Ouvia o silêncio.
- Não quero saber de porra nenhuma – murmurei entre os dentes para não ser ouvido.
Ao longe, fogos pipocavam, bem longe, cada vez mais longe... Devo ter adormecido.
Acordei de madrugada com o cantar estridente dos galos no quintal. O sucedido à noite voltou-me à memória. Senti vergonha e continuei com o rosto encoberto – às vezes, também tinha esse hábito. Fiquei assim não sei por quanto tempo. Voltei a adormecer e quando acordei meu pai já não estava no quarto. Talvez, pensei, tenha ido ao povoado. Relutante, fui até a sala e vi o pacote colocado sobre a velha cristaleira. Peguei-o tímido, examinei-o durante algum tempo e o abri devagar. Funguei e passei a mão no nariz, num gesto supremo para eliminar qualquer vestígio das lágrimas que desciam mansas... Guardei o presente na cômoda, sem desembrulhá-lo totalmente.



O riacho, o meu riacho agora, convidava-me para brincar.
O bule azul sobre o fogão de lenha conservara o café quente. Tomei um gole, deixei a caneca sobre a mesa e saí pela porta dos fundos, amarrando-a num prego estrategicamente fincado no portal. O dia estava bonito: o céu sem nuvens e uma aragem fresca incomum naquela época do ano balançava com suavidade os galhos da mangueira, cujas folhas, uma ou outra, voltavam a sujar o quintal varrido cedinho – como era o seu hábito.
O riacho, o meu riacho agora, convidava-me para brincar.
Corri, despi-me e mergulhei.
Fiquei assim durante algum tempo, não sei precisar. Nadava de um lado para o outro, buscava pedras na parte mais funda, tentando bater os meus próprios recordes. Pássaros voavam em todas as direções numa tremenda algazarra, fazendo-me companhia.
Quando voltei à casa percebi, ainda de longe, que a porta da cozinha estava entreaberta. Não a deixara assim. Apressei os passos e entrei. Antes que papai falasse qualquer coisa – a timidez imprimia-lhe sabedoria! –, corri em sua direção e o abracei. Pensei em agradecer, mas a voz não saiu. Abraçamo-nos forte e ficamos assim. O riacho seguia o seu rumo, os pássaros revoavam, o vento tocava-nos os rostos... Depois de algum tempo, segurou meus braços e afastou-me com delicada firmeza. Olhou-me nos olhos e disse, convidativo:
- “Vamos pescar?”






... não sei sequer se voltei inteiro e ou se parte de mim ficou por lá...

Desde que mamãe se fora, aquela seria a primeira vez que pescaríamos juntos: preparamos as iscas com fubá e o bornal com o farnel, pegamos os caniços e saímos os dois, descendo rio abaixo, pulando pedras.
Não me lembro quanto peixes pescamos - se pescamos; não sei exatamente o tempo que ficamos procurando o melhor lugar, não sei a que horas retornamos – sequer sei se voltei inteiro ou se parte de mim ficou por lá...
Recordo-me com saudades desse dia e da camisa listrada de azul e branco - presentes que ainda guardo com carinho nos escaninhos da memória que o tempo não desfaz. Voltei muitas e muitas vezes àquele riacho - ao nosso riacho! -, pulei sobre as mesmas pedras; hoje, algumas dezenas de anos depois, penso que muitos dos nossos segredos podem estar guardados no fundo do mar...  
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Reflexão: Quem não se lembra?

... esperávamos pela chegada de Papai Noel...

Lembro-me com clareza da véspera dos Natais quando, ansiosos, esperávamos pela chegada de Papai Noel: sapatos e chinelos velhos – alguns sujos, por falta de tempo para limpá-los – eram colocados atrás das portas ou nas janelas na expectativa de que no dia seguinte – cuja chegada demorava uma eternidade – encontrássemos lá uma bola, uma boneca, um chinelo, um carrinho de madeira, um short...
Quem não se recorda das vésperas dos aniversários, das viagens de férias, dos passeios com os amigos, só com eles? Da proximidade do dia da formatura, do nascimento do primeiro, do terceiro, do quinto filho? Do primeiro afilhado? Quem não se recorda do primeiro beijo, da primeira namorada – não necessariamente inesquecíveis! – e do primeiro e único amor? Das Copas do Mundo, das festas de confraternização? Quem não se lembra do dia em que dirigimos sozinhos o primeiro carro e da primeira (e única) bicicleta? Do receio de ser apresentado ao primeiro chefe, da ansiedade ante a promessa da primeira promoção?
Quem não se lembra da alegria de receber uma carta do amigo distante, do telefonema de alguém especial que nos pegaram de surpresa e nos tiraram do sério – positivamente falando – quando estávamos, por qualquer razão, tristes, chateados? Quem não se recorda daquela música que marcou um encontro ou um desencontro e se tornou inesquecível? Quem não se lembra do primeiro livro? Quem não se lembra daquele carnaval em que demos gargalhadas de piadas sem graça, brigamos porque estávamos sendo roubados no jogo e ninguém nos deixou dormir – e que tudo tenha se transformado no centro das nossas conversas e nas razões para nos reencontrarmos e simplesmente estarmos juntos de novo? Quem não se lembra daquela viagem em que o carro quebrou, o dinheiro acabou, o frio era cortante, a distância era grande e que tivemos que andar a pé, em que amaldiçoamos o autor da ideia e que, depois, prometemos fazer tudo de novo?

... a distância era grande e que tivemos que andar a pé ...


Quem não se lembra daquela festa para a qual não possuíamos roupa e os amigos, sempre voluntários, conseguiram juntar peças de um e do outro e, num passe de mágica, transformaram-nos num príncipe simplesmente porque nos queriam por perto?
Quem não se lembra do primeiro porre – aquele mesmo, de vinho de garrafão? Quem não se lembra da primeira palavra do filho, ou do sobrinho, ou do irmãozinho? Quem não se lembra daquele amigo especial que um dia, meio assim, meio assado, disse-nos com sinceridade que éramos o seu melhor amigo? E quem não se lembra de ter ouvido um dia, ainda que baixinho e na distância do tempo, eu te amo...
Quem não se lembra de ter sido elogiado por um trabalho bem feito? Quem não se recorda de ter perdido a hora e acordado cedo demais para trabalhar ou ir para a escola e se dar conta – em meio às gozações dos entes queridos – que era domingo? Quem não se lembra de ter encontrado cinco reais dentro de um livro velho quando só precisávamos de dois? Quem não se lembra de se ter esquecido do aniversário da esposa, do esposo, do amigo e, no dia seguinte receber uma bronca daquelas? E de ter ficado chateado, puto da vida, mas compreender que tudo já tinha passado e que, no fundo, queriam apenas estar perto de nós e nos dizer que éramos importantes?
Quem não se lembra de um apelido horrível que os amigos insistiam em nos chamar, e bem alto, no meio da rua, só para nos aporrinhar?  E quem não se lembra, também, de ter apelidado um menino orelhudo, ou barrigudo, ou baixinho, ou gordinho, só para encher o saco dele?  Quem não se lembra das promessas dos finais de ano de que deixáramos de fumar, de beber, de comer demais, que estudaríamos mais, que, enfim, começaríamos a caminhar como o médico recomendara a e a esposa fazia questão de lembrar a todo o instante? Quem não se lembra daquele presente barato que ainda o guardamos na cabeceira como o mais precioso do mundo? Quem não se lembra de um “muito obrigado”, de um “tenha um bom dia”, de um “feliz aniversário!”, de um “não tenha medo!”? Quem não se lembra?...
... da capacidade de compreender gestos e olhares imperceptíveis...  

Quando tento compreender o porquê de as pessoas não se sentirem motivadas para a vida – trabalho, família, escola –, fico pensando nessas coisas. A motivação está em nós, em cada gesto, em cada atitude, em cada degrau que ascendemos na escala de valores da vida. Temos motivos suficientes para seguir em frente, entusiasmados, vibrantes, fervorosos, convictos de que podemos superar os desafios e transformá-los, daqui a pouco, em doces lembranças e afáveis companhias na véspera de cada dia em que decidirmos nos transformar, um pouquinho de cada vez – que seja! – na pessoa mais feliz do mundo.
Quem não se lembra de encontros, de reencontros, de desencontros?
Quem não se lembra da alegria íntima de um dia ter voltado atrás e, sem vergonha de fazê-lo, ter pedido perdão à pessoa amada, ao amigo querido? Quem não se lembra de, também, ter pensado em voltar atrás e de não tê-lo feito e, depois, não mais reencontrar a oportunidade de reescrever parte da sua própria história? Quem não se lembra de ter-se esquecido de colocar os sapatos atrás da porta e, ainda assim, encontrar no dia seguinte o brinquedo desejado? Quem não se lembra de também tê-lo feito e, depois, descobrir que não fora ainda daquela vez, mas, não desistimos e voltamos a ter esperanças...
A decisão de buscar motivos para seguir em frente é pessoal e intransferível.  As boas lembranças decorrem de como moldamos cada instante, da forma como os construímos, da solidez dos degraus que nos conduzem para cima, da capacidade de compreender gestos e olhares imperceptíveis, da simplicidade de reescrever a própria história...

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Reflexão: Observa

Observa a natureza e percebe o quanto a verdadeira escola é singela e clara: cada coisa, cada parte que a compõe contém em si exemplos que ao homem se aplicam em toda a sua plenitude. Quando ele puder, ou desejar, entendê-los e deles extrair as lições necessárias à experiência e à espiritualidade, certamente se sentirá mais feliz e, em vez de aprendiz, terá aprendido a servir. Observa...

Dos riachos, poderás compreender a coexistência das águas que correm céleres e das pedras adormecidas; das flores, a sutileza de serem belas e fatais, de serem frágeis e acolherem espinhos, de necessitarem de luz e crescerem em pântanos! E ao redor, perceberás a concomitância do começo e fim da tarde, do amanhecer e do dia... E imaginarás formas definidas do ar, da luz, dos sonhos, em regra inacessíveis e abstratas.


... e necessitarem de luz e crescerem em pântanos!
Do tempo que segue adiante e não se cansa e continua por si mesmo, poderás depreender que a proficuidade é eterna; da chuva que cai para servir à terra e retornar logo depois e, assim, recomeçar o ciclo, pode-se inferir a interpendência e interação de tudo que existe. Abrindo lentamente o leque do que cerca o ser, percebendo e refletindo sobre cada uma das coisas e dos fatos concretos e subliminares, poderás identificar-te num momento e, então, compreender sem medo o quanto podes crescer e te harmonizar, integrando-te em definitivo ao Universo do qual - acredita! - fazes parte.

Observa a natureza: em vez de ansiar a felicidade dum instante, aprenderás a eternizá-la, construindo-a gradualmente, assentando com mãos firmes as concepções e ideais que sedimentarão a estrada que planeias e pela qual caminharás um dia, não como aluno, mas como o mestre.

Crédito da imagem
http://wikitravel.org/pt/Parque_Nacional_dos_Everglades - Acesso em 15/10/2013.

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Literatura: Carta a Lívia

 
Rio, num dia qualquer do outono...


Querida Lívia,
 
Hoje pela manhã, tão logo acordei, recebi, surpreso, uma carta do nosso bom e saudoso amigo Francisco. Lá de tão longe e na sua singular e natural simplicidade, pediu-me que despertasse dentro de mim três palavras atualmente tão esquecidas: plantação, colheita e serviço.
 
A primeira - como ele disse -, para compreender que somente através do trabalho se é capaz de avaliar o valor e o sentido da vida; a segunda, para perceber a razão da paciência e da espera e, finalmente, a terceira para entender que a alegria consiste, também, e principalmente, no se dar ao próximo.
 
Peço-lhe, minha cara, que reflita sobre isso e, no seu modo especial de ser, acorde-as também, plantando a boa vontade e colhendo as alegrias do prazer de servir.
 
Com a amizade de sempre,
 
Seu pai.
 
Nota: texto original escrito em 1990, parte integrante do livro Relembranças (Antologia), do autor, elaborado na época da Faculdade de Letras (Professora Carmem Lúcia, Técnicas de Redação), ainda não publicado. Modelo inspirado no livro Correspondência, de Bartolomeu Campos de Queirós.
 
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